Suicídios de agentes de segurança pública preocupam categorias

Por Sandra Zanella e Michele Meireles, Tribuna de Minas – Juiz de Fora

O déficit de policiais civis e militares já é conhecido, mas a sobrecarga de trabalho, aliada a condições muitas vezes precárias, principalmente para os agentes de segurança que atuam em unidades prisionais, tem trazido uma preocupação a mais com a saúde dos servidores, para além das licenças médicas: apenas entre os dias 7 e 14 deste mês, um policial civil recém aposentado e um agente penitenciário do Ceresp cometeram suicídio em Juiz de Fora, enquanto outro servidor, lotado em presídio de Congonhas, praticou autoextermínio na cidade de Santos Dumont, a cerca de 50 quilômetros de distância. Se ampliarmos o raio, chegamos a mais três casos inquietantes ocorridos no mesmo intervalo de sete dias, todos envolvendo policiais militares de Minas Gerais: uma mulher atentou contra a própria vida em Contagem, um homem suicidou-se em Belo Horizonte e um terceiro militar foi morto em confronto com criminosos, em Jequitaí, no Norte do estado.

Cinco dos seis episódios envolvem a prática de autoextermínio e, embora possam ter sido motivados por inúmeras questões, inclusive de foro íntimo, levaram o Sindicato dos Policiais Civis de Minas Gerais (Sindpol) a se articular para cobrar do Governo do Estado uma política pública de prevenção ao suicídio. Segundo o vice-presidente da entidade, Marcelo Armstrong, a pauta é comum a todas as forças de segurança pública, que planejam um ato para o dia 22 de agosto, em Belo Horizonte.

Para Armstrong, a sobrecarga de trabalho e a tensão do dia a dia são gatilhos para os casos tão frequentes de depressão, que muitas vezes culminam em situações extremas. Na visão dele, o adoecimento dos policiais civis, em sua maioria, por problemas psiquiátricos e psicológicos, se deve muito ao fato de Juiz de Fora contar hoje com 160 servidores, 100 a menos do que o razoável para o sindicato. Além disso, cerca de 30% dos que deveriam estar na ativa estão afastados de suas funções por motivos de saúde.

“Com este número de servidores, cada policial trabalha para cinco, seis. Venho desde 2007 denunciando essa situação. Com 260 daria para fazer um trabalho razoável, mas o ideal seriam 400.” Marcelo Armstrong, vice-presidente do Sindicato dos Policiais Civis de Minas Gerais.

De acordo com o sindicalista, todos trabalham sob pressão. “E o que está nos preocupando realmente é este número crescente de suicídio, não só na Polícia Civil, mas em todas as forças de segurança pública, e em todo o estado. Atualmente, a média de afastamento por motivo de saúde é de um para cada três policiais, a maioria por doenças psiquiátricas. A depressão é silenciosa, acontece com qualquer um e é difícil detectar. Por este motivo, estamos nos preparando para fazer frente a este problema e cobrar do Governo Zema políticas públicas de prevenção ao suicídio nas forças de segurança pública.”

Quadro agravado

Armstrong reforçou que se a doença não for tratada, o quadro inicial pode ser agravado. “Vemos colegas que se afastaram por problemas de depressão, mas como o quadro já é deficitário, há pressão para que retornem ao trabalho. Eles voltam sem estar bem, e aí acontecem as fatalidades. A função policial é pesada por natureza, precisamos deste apoio constante para que os servidores sejam, de fato, recuperados.”

A opinião é corroborada pelo presidente da Associação do Sistema Socioeducativo e Prisional de Juiz de Fora (Assprijuf), Wanderson Pires. “É gravíssimo o que vem acontecendo em toda segurança pública, e não estamos vendo o Estado movimentar para mudar essa triste realidade. As unidades prisionais de Juiz de Fora e região estão superlotadas e algumas interditadas judicialmente, não tendo mínimas condições físicas para receber mais acautelados. A superlotação gera muito estresse nos servidores, que não conseguem atingir o principal objetivo do encarceramento, que é o cumprimento de pena e ressocialização do preso.”

Em relação aos policiais militares, o déficit chegaria a 12 mil no estado, de acordo a Comissão de Segurança Pública da Assembleia. A situação afeta as escalas de trabalho, podendo contribuir para o aumento do desequilíbrio emocional, que leva a tantas licenças médicas e, em alguns casos, culmina em suicídios e tentativas. “Mesmo lidando durante tantos anos com a segurança pública e com os profissionais de outros órgãos, vemos com muita tristeza e preocupação esse cenário. A sociedade precisa cuidar daqueles que cuidam dela”, alerta o coronel Renato Preste, veterano da PMMG e especialista em segurança pública e cidadania.

Para ele, a função dos agentes de segurança pode influenciar na saúde mental deles, mesmo porque vários atuam longe de suas famílias. “Acredito que as questões psicológicas e financeiras são agravadas por um quadro de estresse relacionado à profissão, que é muito cobrada pela sociedade e injustiçada em alguns casos. O rigor por resultados e por redução (dos índices criminais) é sempre muito grande.”

Para o especialista, muitas vezes os policiais precisam fazer uso da força repressiva diante da criminalidade violenta, mas são incompreendidos. “Uma parte da sociedade quer atuação rigorosa, mas rejeita e condena injustamente ações, mesmo sendo essas pautadas na legalidade, nos princípios constitucionais e nos direitos humanos.” Segundo ele, precisa haver um suporte psicológico cada vez maior por parte da corporação. “A sociedade também precisa dar mais credibilidade e respeito a essas autoridades que zelam pela nossa segurança.”

Disparos contra as próprias cabeças

Os dois casos de suicídio registrados em Juiz de Fora foram executados mediante disparos contra suas próprias cabeças. Segundo o boletim de ocorrência da PM, o policial civil aposentado tinha 50 anos e foi encontrado morto em uma via pública da Zona Leste da cidade na manhã do dia 14. Ele apresentava perfuração na lateral direita da cabeça e estava com sangramento na boca e no ouvido esquerdo, de onde teria partido o tiro, que transfixou. Ao lado do corpo estava um revólver calibre 38. Um veículo estacionado na mesma rua foi atingido por um projétil na porta dianteira esquerda. Uma pessoa que passava pelo local chegou a ver o policial sacar a arma e efetuar dois disparos, sendo o primeiro contra o automóvel e o segundo contra a sua cabeça. A vítima deixou um bilhete no qual relatava sofrer de depressão devido a um problema de saúde.

Já o agente penitenciário lotado no Ceresp tinha 30 anos e praticou autoextermínio no fim da tarde do dia 7 em um bairro da região Nordeste da cidade. Conforme o registro da PM, ele estaria inconformado com o término de um relacionamento de quatro meses, ocorrido duas semanas antes, e se matou disparando uma pistola calibre 380 contra a própria cabeça na frente da ex-namorada, 23, na porta da residência dela. Ainda segundo o boletim de ocorrência, o homem já teria ameaçado tirar a própria vida anteriormente.

O caso do agente penitenciário lotado em unidade prisional de Congonhas aconteceu também no dia 7, no município do Santos Dumont. De acordo com a ocorrência da PM, o homem, 29, estava deitado com sua namorada durante a madrugada, quando levantou-se dizendo que “iria ali e já voltava”. Após fechar a porta do quarto, seguiu para um cômodo onde ficam aparelhos para a prática de exercícios físicos. A mulher ouviu um barulho e, ao verificar, encontrou a vítima com um cabo de aço de um dos equipamentos enrolado no pescoço. Ela e o pai do agente, 57, ainda conseguiram socorrê-lo, mas o homem não resistiu após ser levado pelo Samu para o pronto socorro. Na ocasião, a PM foi informada que o servidor passava por problemas psicológicos e costumava chegar “muito nervoso dos plantões no presídio”.

A assessoria da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp) confirmou os dois óbitos de agentes penitenciários e acrescentou terem sido esses os dois únicos casos envolvendo autoextermínio de servidores da categoria registrados este ano em todas as 19 Regiões Integradas de Segurança Pública (Risps). Ainda segundo a pasta, “em relação aos agentes socioeducativos, não há registro de suicídio no Estado em 2019”.

Atendimento

Questionada sobre algum trabalho preventivo para que essas mortes sejam evitadas, a assessoria informou que a Sejusp, “por meio da Diretoria de Atenção ao Servidor (DAS), acolhe e orienta o servidor que porventura se encontrar em situação instabilidade emocional”. Para atendimento, o contato pode ser feito com a DAS pelo telefone (31) 3915 5879, ou pelo e-mail: [email protected] “O atendimento é extensivo a todos os servidores do sistema prisional e não somente àquele que encontra-se em Belo Horizonte.”

A Polícia Civil, por sua vez, disse que por questões éticas, não comenta dados de suicídio cometidos por servidores da própria instituição, mas afirmou dispor de serviços voltados à promoção da saúde física e mental de seus funcionários. “O atendimento médico e psicológico é oferecido no Hospital da Polícia Civil e no Centro Biopsicossocial, que, inclusive, está passando por intervenções de melhorias na estrutura física para aprimorar a acolhida dos pacientes. A PCMG realiza, ainda, gestão dos recursos humanos com acompanhamento dos seus profissionais nos locais de trabalho. Os servidores também têm a opção de aderir ao plano do Instituto de Previdência dos Servidores do Estado de Minas Gerais (IPSEMG).”

Três casos de policiais militares em dois dias

As três ocorrências recentes envolvendo policiais militares foram confirmadas pela assessoria da corporação em Belo Horizonte. Um cabo de 28 anos suicidou-se na capital mineira no dia 13, disparando contra sua própria cabeça, dentro de um apartamento. Segundo o boletim de ocorrência, o policial se matou no quarto com uma pistola ponto 40 após a namorada deixar o local depois de uma discussão. Ele era lotado no 16º Batalhão. A mulher também é policial militar e, ao saber da morte, teve um mal súbito, sendo socorrida.

Na véspera, no dia 12, uma soldado da PM, 30, conseguiu sobreviver após ingerir uma grande quantidade de remédios em Contagem, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Conforme o registro policial, colegas do 18º Batalhão souberam que a mulher estava com quadro depressivo e intencionada a atentar contra a própria vida. Diante da situação, uma equipe seguiu até a casa dela e encontrou a vítima desmaiada sobre a cama, com vários tipos de medicamentos ao redor. Ela foi socorrida até um hospital municipal.

Troca de tiros

Já um cabo de 33 anos também morreu no dia 12 durante operação de combate a roubos em postos de combustíveis na BR-265, próximo ao acesso a Jequitaí, no Norte de Minas. Ele foi alvejado em troca de tiros ocorrida na tentativa de abordagem a suspeitos. Um dos criminosos também teria morrido no confronto. Em nota, o comandante geral da PMMG, coronel Giovanne Gomes da Silva, lamentou a morte do cabo, lotado no 55º Batalhão, “em razão de ação policial”.

A assesssoria da PMMG informou que não divulga estatísticas de óbitos de policiais. “A instituição garante que todo o acompanhamento da saúde dos militares da ativa é feito rotineiramente com exames periódicos e todos que necessitam acompanhamento, da ativa ou da reserva, o recebem prontamente.”

“Classe está doente e pedindo socorro”

A superlotação nas unidades prisionais é apontada pela Associação do Sistema Socioeducativo e Prisional de Juiz de Fora (Assprijuf) como um dos principais fatores que afetam a saúde dos agentes penitenciários. Segundo o presidente da entidade, Wanderson Pires, a falta de infraestrutura, como alojamentos inadequados, guaritas sem condições de uso e iluminações precárias, não só afeta o trabalho, mas contribui para os altos índices de entrada de ilícitos nos presídios. “Posso ressaltar que toda semana uma pessoa é presa ou encontramos drogas e celulares ao lado das muralhas.”

Ainda conforme Pires, além dos dois agentes penitenciários que cometeram suicídio no dia 7, um ex-agente tirou a própria a vida em 26 de junho em Juiz de Fora. “Ele trabalhou durante 14 anos no sistema, foi desligado por término de contrato, mas nunca se conformou.” De acordo com a ocorrência registrada pela PM, o segurança de 51 anos foi encontrado pelo próprio filho, 22, pendurado pelo pescoço por uma corda presa na maçaneta da porta do quarto, em sua casa na Zona Norte. O jovem ainda cortou a corda e tentou reanimar o pai, mas o óbito foi confirmado pelo Samu. Na ocasião, a PM foi informada que a vítima realizava tratamento contra depressão há cerca de três anos.

“Infelizmente o Estado sempre investiu recursos para o acautelado, com todos os acompanhamentos de forma imediata, esquecendo de nós servidores, que raramente conseguem se aposentar. Ficamos doentes com frequência ou alguns cometem o autoextermínio”. Wanderson Pires, presidente da Associação do Sistema Socioeducativo e Prisional de Juiz de Fora (Assprijuf)“

Dentro da carceragem somos um pouco de tudo: agente de segurança, enfermeiro, assistente social, psicólogo e até advogado. Graças ao nosso profissionalismo sempre buscamos qualificação por meios próprios e conseguimos fazer um trabalho de excelência. Mas não recebemos o mínimo apoio, como acompanhamento psicológico para nós e nossos familiares, que também são atingidos.”, completa.

Preocupada com o bem-estar dos servidores, a Assprijuf informou estar criando um projeto em parceria com os setores de saúde da cidade. “Iremos realizar palestras nas unidades prisionais com vários técnicos e proporcionar um pré-atendimento aos servidores que necessitam de acompanhamento, pois a classe está doente e pedindo socorro.” Profissionais de saúde que tiverem interesse em fazer parte do projeto podem entrar em contato com a associação pelo telefone (32) 99141-1696 ou pelo e-mail [email protected]

Fonte: Tribuna de Minas